O segredo de Vilcabamba

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Por mais que se queira evitar, parece que hoje a nossa mente já está programada para viver calculando os riscos de tudo o que comemos. É incrível como, diante daqueles pratos obscenos de jamón ibérico em Madri, para cada “hmmm, que delícia” proferido, havia um “ai, imagina o colesterol disso”. Tanto quanto a imagem da carne rosadinha atiça o paladar, a gordurinha – fundamental para o sabor – já dá taquicardia só de ver.

Parece que é o dilema do ato de comer nesta nossa era: conseguir a tal “alimentação saudável”, todo mundo quer, mas ninguém pretende abrir mão completamente das delícias que, em geral, fazem mal e reduzem nossa expectativa de vida. Mas, será que o dilema é esse mesmo? Que a fórmula é essa mesmo?

No meio daquela overdose de gordura branquinha e deliciosa entremeada às fatias de jamón, numa manhã em que eu lia o El País, me deparei com uma seção no jornal que se chama “Un almuerzo con…”. A idéia é que o repórter se sente para almoçar informalmente com algum personagem (não necessariamente do mundo da gastronomia) e relate o que aconteceu no restaurante e quais os assuntos que foram sendo puxados pela comida (porque a comida, vocês sabem, puxa assunto).

O papo que li foi com o médico e escritor argentino Ricardo Coler, que publicou este ano o livro Eterna Juventud (Editora Planeta, só em espanhol). Ricardo viajou até uma cidadezinha encravada num lindo vale no Equador chamada Vilcabamba. Há anos o lugarejo é objeto de estudo de pesquisadores do mundo inteiro por ser uma espécie de “Eldorado da Longevidade”. Não é nada incomum que os habitantes de Vilcabamba passem dos 100 anos de idade e alguns chegam aos 135 anos sem problemas. A maioria deles continua trabalhando na roça normalmente até morrer, e o índice de câncer e problemas cardíacos é praticamente nulo.

A explicação-padrão para o fenômeno é o ar puro, a temperatura estável o ano todo, a dedicação à atividade física (já que quase todos os habitantes trabalham cuidando de plantações), a alimentação saudável… Enfim, a cartilha à qual já estamos acostumados do lado de cá de Vilcabamba.

Pois Ricardo Coler partiu para conhecer de perto os hábitos dessa gente duradoura e se surpreendeu: “Colocam todo o sal do mundo na comida, o consumo de álcool e tabaco é altíssimo, alem de um tipo de erva-do-diabo altamente tóxica.” E uma informação adicional decisiva: “Além disso, eles praticam quanto podem de sexo.”

O argentino reparou que os centenários de Vilcabamba enxergam perfeitamente sem óculos e conservam a dentição impecável. E, segundo ele,  “isso não se conserva com alimentação e exercícios”. Para dificultar o quebra-cabeça, a predisposição genética também não é uma opção. “Quando os habitantes se mudam de Vilcabamba, morrem antes, como todos.”

Quer dizer: a questão de se conservar bem pelo jeito vai além das gorduras trans e dos poliinsaturados. Perguntados, tudo que os habitantes de Vilcabamba conseguem dizer é que “vivem uma vida serena”. Amanhã ou depois não duvido que a ciência comprove que comer uma saladinha com filé de frango grelhado só por obrigação e pressão social carrega muito mais nossas artérias do que um jamón ibérico cheinho de gordura, mas ingerido com alegria, leveza e um bom Rioja.

O que não significa, claro, ignorar tudo o que já se descobriu sobre nosso corpo até hoje. Afinal, o próprio Ricardo Coler, no tal almoço, pediu salmão grelhado e um refrigerante light, dizendo que “a dieta não importa para eles, em Vilcabamba. Para nós, por enquanto, o melhor é comer pouco sal, não fumar e praticar esporte.” Enquanto ninguém descobrir qual é o verdadeiro segredo desse pessoalzinho equatoriano, continuemos nos cuidando. Mas sempre levando em conta que a cartilha da vida saudável que conhecemos hoje não é algo absoluto e indiscutível. E que, desde que o mundo é mundo, ninguém descobriu receita melhor para viver bem do que se satisfazer.

PS: Aqui, uma propaganda em vídeo do livro de Ricardo Coler, com algumas declarações de habitantes de Vilcabamba:


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