Aprendendo a comer

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A fama (justificada) que os norte-americanos têm de serem a população com os piores hábitos alimentares do mundo é a origem de um fenômeno irônico: é também lá, nos Estados Unidos, que mais se publicam livros que pensam o ato de comer.

Alguns anos atrás, o complexo de culpa alimentar dos norte-americanos fez com que surgisse um sem-número de dietas milagrosas (Dr. Atkins, Beverly Hills…). Hoje, quando temos consciência de que os maus hábitos não prejudicam apenas a saúde de cada um, mas todo o resto do planeta, o que brota nas prateleiras e nas listas de mais vendidos de lá já não são apenas livros de dietas, mas de “filosofia da alimentação”, por assim dizer.

O exemplo mais claro foram dois livros de Michael Pollan, que inclusive foram editados aqui no Brasil: O Dilema do Onívoro e Em Defesa da Comida. Mais do que emagrecer, o que o norte-americano parece querer é reencontrar o sentido de comer – algo que se perdeu com a proliferação dos fast-food e dos congelados; de tudo o que valoriza a rapidez e a praticidade sem qualquer preocupação não apenas com a saúde, mas com a possibilidade de explorar sabores e texturas diferentes.

Pois bem: com Michael Pollan os Estados Unidos descobriram o que é se alimentar melhor, e parecem ter entendido como fazê-lo. O pensador nutricional da vez por lá é Mark Bittman, que assina uma coluna de gastronomia chamada “O Minimalista” no The New York Times. Ele lançou recentemente Food Matters: A Guide to Conscious Eating (“A Comida Importa: Um Guia para o Comer Consciente”), um manifesto que parece ter encaixado perfeitamente com as necessidades de muita gente cuja atividade na cozinha não vai além dos botõezinhos do microondas.

O trunfo do livro de Bittman é tratar o ato básico de cozinhar não como arte e nem como hobby, mas como parte essencial da vida doméstica, como dirigir, escrever ou fazer contas. Para Bittman, cozinhar as refeições – algo que o homem faz há milênios – deveria voltar a ser visto como parte importante da vida, como algo que se ensina nas escolas públicas (como nos Estados Unidos acontece com a carpintaria ou a economia doméstica). Por isso é que Food Matters inclui 75 receitas, todas repletas de dicas simples para facilitar a inclusão de ingredientes naturais na dieta daqueles que vivem das coisas industrializadas, caras e poluentes.

Pode parecer até óbvio demais para qualquer um que não tenha hábitos alimentares desastrosos, mas pelo jeito há mais gente do que imaginamos precisando justamente disso: começar do zero, do be-a-bá.


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