Do tabaco e do chocolate

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No caderno Mais! da Folha do último domingo tem uma entrevista de duas páginas com a autora de um livro que eu achei interessantíssimo, o Sacred Gifts, Profane Pleasures (Dádivas Sagradas, Prazeres Profanos), recém-lançado nos EUA. Nele, a historiadora Marcy Norton, que parece um pouco ranzinza pelo papo com o jornalista, traça um paralelo entre o tabaco e o chocolate, jogando seu foco de luz sobre o período de colonização da América pelos ibéricos, entre séculos 15 e 18. Em comum, esses produtos foram capazes de inverter a lógica e saíram das colônias em que foram descobertos para conquistarem as respectivas metrópoles e, por extensão, toda a Europa.

Enquanto ela discorre sobre o caráter nobre do chocolate pré-colombiano, uma espécie de elixir dos deuses (não esqueçam que o produto só existia na forma líquida; a barra foi invenção de um holandês só nó século 19, falamos disso em outro post por aqui), e também a respeito do caráter rasteiro do tabaco, associado a escravos e marinheiros, eu fico pensando que tanto um quanto o outro costumam ser alvos de polêmicas.

O tabaco consegue a proeza de ainda ser mundialmente consumido em larga escala, mesmo se sabendo de seu poder nefasto. E aqui faço um outro link. No Meio & Mensagem da semana passada bati o olho numa outra entrevista, esta com um marketeiro que dizia de seus estudos no campo do neuromarketing (marketing à luz das novas descobertas da neurociências, algo que, segundo ele, vai revolucionar o setor). Lá, ele falava que comprovou em suas pesquisas que as agressivas propagandas antitabagistas provocam nos fumantes exatamente o efeito contrário do desejado – dão vontade de fumar. Vai entender… Fechando o parênteses, o fato é que tabaco faz mal, mas sempre gera uma polêmica enorme que resvala em direitos humanos (já começou a chiadeira por causa da nova lei do Serra), em dependência, no glamour de Hollywood e no prazer lúdico que aquelas caixinhas provocam em seus consumidores.


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Com o chocolate a coisa é bem menos grave, mas quantas vezes não o vimos associado à onda global de obesidade? Sob esse ponto de vista, não seriam nefastas também as campanhas publicitárias das grandes indústrias do ramo? Uma coisa é fato, a recente revalorização do produto, com origem denominada e maior teor de cacau, veio em boa hora – havia, e ainda há, chocolates no mercado que são pura gordura e zero cacau. Uma vergonha! Outro ponto, esse desfavorável a nós brasileiros, é que aqui tratamos muito mal o chocolate líquido ou quente, como se diz. Nem comparação com a bebida vendida em grandes metrópoles mundiais, tipo NY. Essa sim, talvez próxima da oferecida por Montezuma ao recepcionar os conquistadores espanhóis. Aproveito a deixa para transcrever a receita publicada também na matéria do Mais!, início dessa nossa viagem aqui. Tentem fazer em casa e depois me contem, tá?


Receita de chocolate do século 17 (compilada por Antonio Colmenero de Ledesma em 1631)

Ingredientes
- 100 grãos de cacau
– 2 chiles
– 1 anis
– Mecaxóchiti (planta das piperáceas, como a pimenta-do-reino ou a capeba, portanto dá para substituí-la por algo próximo)
– Xochinacazli (Ledesma recomenda a substituição dessa flor por rosas; a quantidade não é especificada)
– 1 baunilha
– 60g de canela
– 250g açúcar

Preparo
Secar e fermentar os ingredientes (no caso do cacau, o processo pode levar dias). Moer e depois amassar com um rolo de pedra, de preferência sobre uma superfície aquecida, até obter uma consistência pastosa (processo semelhante à fabricação moderna do chocolate). Acrescentar água e mexer (para fazer espuma, os pré-colombianos aeravam o líquido jorrando-o de um jarro a ouro de um altura de um corpo; os espanhóis introduziram o molinilho, mais eficiente para bater a mistura, mas o resultado final foi considerado insatisfatório na época).


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