Papo com Ilda

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Já comentei na minha coluna Carlota Express na Mit FM a ótima notícia da chegada da Ilda Vinagre ao Brasil e, mais especificamente, às cozinhas dos restaurantes A Bela Sintra e Trindade. Ela aceitou o convite do restaurateur Carlos Bettencourt para dar uma revigorada no cardápio das casas paulistanas e deixou seu restaurante A Bolota Castanha, a 200km de Lisboa, sem pretensões de voltar tão cedo. “Desde a primeira vez que vim gostei muito daqui. Não sei do quê exatamente: só cheguei e gostei. Espero que este seja meu último emprego.”

Como fã declarada dessa maravilhosa portuguesa, com quem já cozinhei há dois anos, na Vinícola Esporão no Alentejo, em Portugal, achei que valeria a pena que ela mesmo contasse o que faz dela uma das minhas chefs preferidas.


Ilda, como foi o processo de escolha e criação dos pratos que você incluiu no cardápio do A Bela Sintra?
Não foi difícil, porque já vinha de dois restaurantes dentro desta linha (A Bolota Castanha e Herdade do Esporão). Vou pondo, vou fazendo… Não é estudado, é mais emocional. As receitas são minhas: as desenvolvo desde que comecei a trabalhar, e estão sempre na moda.

Sei que você gosta mais de criar pratos salgados, mas os doces também têm vez na sua cozinha?
Pois sim, prefiro criar pratos salgados. Já fiz algumas sobremesas, porém não me encanta. De minha criação, no cardápio do A Bela Sintra, tem o bisquit de figo com molho de nozes, bem gelado, muito agradável.

Você tem 30 anos de carreira. Quando foi exatamente que começou a cozinhar?
Desde que nasci, fui logo posta ao lado de um fogão: minha mãe tinha uma taverna e me colocava em um cesto ali para cuidar de mim enquanto trabalhava. Cresci com as panelas, mas comecei a cozinhar a sério com 24 anos.

Por que “a sério”?
Antes era brincar. Eu trabalhava no escritório da companhia aérea TAP havia sete anos e, naquela altura, não se pensava o que se queria ser. Apenas se era o que a vida proporcionava. Casei-me muito cedo, tive filhos muito cedo, e senti que em Portugal não poderia dar a vida que queria para eles. Então coloquei um anúncio no jornal procurando emprego como cozinheira. O primeiro lugar que me contatou foi a Embaixada de Portugal, e eu fui trabalhar na Embaixada de Portugal nos Estados Unidos. Cozinhava aquilo que sabia e fiz sucesso: era muito nova e, normalmente, as cozinheiras desses lugares costumavam ser senhoras de 60 anos. Mas não foi fácil conseguir o emprego. Quando fui à entrevista, o embaixador olhou para mim e disse: “Você não sabe descascar uma batata”. Eu fiquei muito ofendida! Respondi: “Está bem, não sei, mas vou aprender. Por favor, deixe-me ir”. Ele respondeu: “Está bem, vou contratá-la, mas duvido que fique”.

E depois que você virou um sucesso, o que ele disse?
Quase ajoelhou-se pedindo desculpas (risos). O engraçado é que o primeiro jantar que fiz foi para o Embaixador do Brasil. Eu estava tão nervosa, com medo de que desse algo errado, que eles não gostassem da minha comida. Era minha estreia. Então fui servir um peru à portuguesa imenso, em uma bandeja de prata, cheio de castanhas (à época, eu cozinhava e servia) e a embaixatriz não tocou na comida. Ficou uns 30 segundos olhando para mim. O embaixador de Portugal tremia. Então, ela disse: “Antonio, onde você arrumou essa gatinha tão bonita?” (risos). No final ela adorou a comida.

Você também teve um bufê nos Estados Unidos, não?
Meu sonho era voltar para Portugal com dinheiro para comprar uma casa. Então eu trabalhava a semana toda na Embaixada e, aos finais de semana, tinha um bufê que servia pratos portugueses na casa das pessoas, o que era muito exótico. Aquele tempo, na América, era ótimo para se ganhar dinheiro. Em pouco tempo ganhei para a casa e muito mais. Mas hoje em dia não tenho dinheiro, como podem pensar. Basta-me ser feliz e cozinhar por prazer.


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