COZINHARTE

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Você tem fome de quê? Quem gosta de livros de culinária já sabe (ou já leu) que cozinhar é uma expressão autoral: estimula a mente e os sentidos. Historicamente, essa interpretação é recente. Antes, as refeições elaboradas valorizavam os prazeres imediatos, a estética dos pratos, as glutonarias e, claro, provocava arrependimentos pelos excessos cometidos à mesa.

De duas décadas para cá, a cozinha entrou na sala. Tomou conta dos ambientes. Mudou a arquitetura da vida. Virou assunto obrigatório. E, por isso tudo, se tornou transparente. Hoje é normal encontrar restaurantes que exibem suas cozinhas por janelões envidraçados. Conversar sobre comida e chefs virou algo tão normal quanto comentar filmes, shows ou programas de lazer. Comer virou diversão e arte? Sim e não.

A cozinha deixa de ser “arte” quando as invencionices do cozinheiro surgem com efeitos bobos. Aliás, está acabando a fase do chef pop, aqueles que se colocam adiante dos resultados. Os cozinheiros “de verdade” pesquisam, dividem experiências, admitem erros e não se consideram seres iluminados. Chef com discurso de auto-ajuda parece cumbuca vazia. Especiais são os ingredientes que nos conduzem a descobertas, a achados e a soluções. O fogo da cozinha não deve alimentar a fogueira das vaidades.

Fogo aceso e panela em uso parecem elementos de algum altar pagão. Os ingredientes vieram do mundo natural, o sacerdote usa sua veste estranha, os instrumentos são ritualísticos, os movimentos não são nada aleatórios, as ações pedem precisão, o tempo voa. Existe pressa, mistério e necessidade de resultados. Um pajé até será perdoado se falhar. O cozinheiro, não. Estômagos vazios são implacáveis. O paladar é um enigma do corpo. Cozinhar é tentar – sempre – acertar nesses alvos: prazer, satisfação e completude. Arte e prazer.

Mas mudando de pimenta pra pilão, as cozinhas têm atmosferas de ateliês. Puxa, é tão complicado misturar cores num prato quanto pintar uma tela grande. O quadro permanece na parede. A receita fica na memória. A conexão com a arte está exatamente nisso: provocações sensoriais. Uma cebolinha traz revelações tão intensas quanto uma pincelada. Pena que nós, cozinheiros, façamos criações tão perecíveis. A cozinha é sonho. Por isso pode — e precisa — ser arte. Das panelas saem coisas que ninguém sabe definir. E não é assim que surgem as criações? Criar é se deixar levar. Com técnica, sensibilidade e pensamento livre. O pincel do cozinheiro pode ser uma cenoura. E por que não?


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