Dos doces pelotenses


O jeito mais legal de conhecer a História, com H maiúsculo, é vê-la refletida em pequenas histórias e situações que acontecem no nosso dia-a-dia. A mesa é um território riquíssimo para isso, e algumas delícias – como os maravilhosos doces de Pelotas, no Rio Grande do Sul – ficam ainda mais saborosas e valiosas quando entendemos o porquê de serem como são.

O interessante dos doces pelotenses é que eles estão diretamente ligados a movimentos migratórios e comerciais que envolvem dois lugares que a princípio parecem não ter qualquer relação com o interior gaúcho: Pernambuco e Portugal. O que acontece é que, nos tempos do Brasil colônia, Pernambuco era um pólo importante de produção de cana-de-açúcar e, por isso, um dos destinos onde os portugueses (e, com eles, suas receitas deliciosas de doces) se instalaram. Era lá que a sinhá, a negra e a índia se encontravam na cozinha. Enquanto isso, a produção de charque andava de vento em popa no sul do Brasil, em Pelotas.

Começa aí o intercâmbio mágico que resulta nos deliciosos doces pelotenses: os navios subiam carregados de charque rumo ao Nordeste brasileiro e voltavam repletos de açúcar e de influência portuguesa. Resultado: a tradição fincou raízes, e hoje é em lugares como a Doces Pelotenses que nós podemos experimentar delícias como baba de moça, barriga de freira, pudim quero-mais, suspiros, sonhos, beijinhos, argolinhas de amor, melindre, bem casado, beijos de cabocla, toucinho do céu, mimos, arrufos de sinhá e outras pérolas da confeitaria e também dos nomes poéticos e sugestivos.

Ter um passado colonizado, e não colonizador, pode ter uma infinidade de consequências nefastas, mas ao menos nos garante fenômenos tão ricos como esse. Os doces pelotenses são um tratado de brasilidade, uma prova viva de como este país vive de receber tanta influência, mas tanta influência diferente, que acaba encontrando seu caminho e criando algo autenticamente seu. E, como se não bastasse, ainda são deliciosos!


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