A conta que não quer fechar

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Já virou até lugar-comum associar os imigrantes latinos nos Estados Unidos ao trabalho de lavador de pratos. E não por acaso. Possivelmente todos nós temos algum amigo, familiar ou conhecido que passou (e/ou ficou) pelo “país da liberdade” graças aos trocos ganhos entre a gordura e o detergente de uma lanchonete ou restaurante americano.

O assunto volta e meia ressurge e desta vez voltou à tona com força por causa do endurecimento do governo Obama com os empregadores de imigrantes ilegais, que vai possivelmente levar a um recorde de inquéritos e multas até o final do ano. Do começo do ano até agora, 2.073 empresas estão sob investigação sob acusação de usarem mão-de-obra ilegal.

Estes artigo do NY Times e este post aqui focam no problema pelo lado dos donos de restaurantes e levantam várias questões que merecem uma reflexão.

Vamos aos dados…
– De acordo com o Bureau of Labor Statistics, de um total de cerca de 12,7 milhões de trabalhadores da indústria do restaurante, um número estimado de 1,4 milhão – tanto os imigrantes legais e ilegais – são de origem estrangeira.

- De acordo com estimativas de 2008 do Pew Hispanic Center, cerca de 20% dos quase 2,6 milhões de chefs, cozinheiros-chefe e cozinheiros são imigrantes ilegais. Entre os 360 mil lavadores de prato, 28% estão em situação irregular.

Aos motivos…
– “Nós sempre contratamos os trabalhadores sem documentos”, disse um proprietário e chef de uma casa em Manhattan. “Não sou só eu, é todo mundo na indústria. Primeiro, eles (os ilegais) estão dispostos a fazer o trabalho. Segundo, eles estão dispostos a aprender. Terceiro, eles não são bem pagos. É uma decisão econômica. É mais barato contratar uma pessoa em situação irregular. “

- Um restaurateur do bairro de TriBeCa, em NY, que trabalha no ramo há mais de duas décadas, disse que cerca de um quarto dos seus empregados são imigrantes ilegais, principalmente de México, África e América do Sul. Ele explica que aqueles que fornecem números da Segurança Social são pagos com cheque. Os outros recebem em dinheiro, o que permite aos proprietários evitarem de pagar impostos. Ele também afirma que não paga menos que o salário mínimo federal de US $ 7,25 por hora.
“Se eles me dão um número de segurança social, não faço perguntas”, disse ele. “Isso é o que todo mundo faz”.

Parte das conclusões…
– As agências do governo recomendam que os empregadores contratem uma empresa de auditoria ou treinamento de pessoal para a detecção de documentos fraudulentos. Um número crescente de estados americanos agora obriga os empregadores a utilização do E-verify, um sistema on-line que determina a elegibilidade dos candidatos para trabalharem nos Estados Unidos.

– Se as leis de imigração forem aplicadas no negócio do restaurante: “No fim, o cliente vai acabar pagando por isso”, disse o empresário de TriBeCa. “Nós vamos ter que pagar salários mais altos, mais impostos e, consequentemente, teremos que cobrar mais. A economia não é tão grande: se cobrarmos mais, haverá menos clientes e mais pessoas saindo do negócio. “

E a pergunta que não quer calar…
– Se você trabalha em um restaurante com empregados sem documentos, quanto a mais o seu negócio pagaria se todos os seus empregados fossem legais? Os trabalhadores legais aceitariam trabalhar como lavadores de pratos por um salário mínimo? Dois dólares acima do mínimo? Quanto será que tudo isto contribui para o custo da conta final?

O problema, no fim, é evidente: o alto custo para cumprir todos as exigências do governo e ainda assim ter um negócio viável. Soa familiar, não? Como proprietária de restaurante no Brasil, eu confirmo: soa e muito.


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