Lucy in the cave with knives

lucy
É epifânico dar-se conta de que nossa existência, assim como nos reconhecemos frente ao espelho ou em uma fila de banco, é um conjunto de evoluções que tiveram início há mais de 4 bilhões de anos, partindo das células mais simples. Nossa espécie, a dos Homo Sapiens, é apenas uma microparte desse processo: temos menos de 500 mil anos. Somos totalmente novatos no mapa evolutivo proposto por Darwin na metade do século XIX, no qual descendemos de um ancestral comum.

As consequências de acreditar ou não (se é que podemos usar crença aqui) de que estamos ligados geneticamente a todos os seres vivos que habitam este planeta abre um campo filosófico incrível para pensar, desde grandes temas, como o efeito estufa e a presença de vida em outros planetas, a como lidamos com as alegrias e frustrações diárias. Relativizar o tempo e o espaço, dentro desse contexto, é fundamental.

Estou digredindo um pouco, mas a intenção é dividir com vocês o artigo “A mãe de todas as lâminas”, do biólogo Fernando Reinach, publicado no Estadão há algumas semanas. Ele conta como as recentes escavações têm mostrado que os Australopithecus afarensis (cujos vestígios fósseis datam de 3,4 milhões de anos, ou seja, cerca de 3 milhões de anos antes do primeiro Homo Sapiens) já usavam lâminas de pedra como instrumento de corte para retirar a carne do osso, romper o osso e chegar ao tutano.

O texto cita a Lucy, uma fêmea adulta da espécie Australopithecus afarensis que teve seu esqueleto quase completo descoberto na Etiópia, em 1974. Posso imaginá-la manuseando em sua caverna as pedras lascadas com a mesma habilidade (relativa) que os sushimen trabalham com suas facas de aço polido atrás do balcão. “Na próxima vez que você utilizar uma faca, lembre de que a descoberta dessa tecnologia foi feita pelo pequeno cérebro de um hominídeo”, propõe Reinach. “Nós, tão sapiens, só aperfeiçoamos o instrumento”. Dá para não se apaixonar pela evolução da vida?


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