Vegano for dummies


Certos assuntos gastronômicos ainda geram muita confusão e, acredito eu, isso ocorre na maioria das vezes devido a preconceitos. Tenho visto muitas matérias sobre vegetarianismo, comida macrobiótica e dicas de lugares legais na cidade para quem curte comida natural. Comida natural? Sempre que leio esse termo fico com cara de dúvida. Da última vez, decidi consultar uma das referências no assunto no país, a nutricionista gaúcha Claudia Lulkin.

Lactovegetariana durante 30 anos, desde 1980 Claudinha integra a Cooperativa Ecológica Coolméia (palco do movimento pela agricultura orgânica no Rio Grande do Sul, do cooperativismo autogestionário e do consumo ético). Ela se tornou vegana em 2007, quando seu filho passou a fazer parte do Grupo pela Abolição do Especismo de Porto Alegre.

Como você deve saber, o vegetarianismo tem várias formas. E nisso reside muita confusão. O denominador comum a todas elas é a ausência de carne de qualquer tipo na alimentação. Os ovolactovegetarianos consomem ovos, laticínios e mel. Os lactovegetarianos não consomem ovos, mas encaram numa boa laticínios e mel. Os ovovegetarianos, como você agora pode supor, só não comem laticínios. E quem não come nada disso, entra no grupo do vegetarianismo estrito.

Mas aí vem o contraponto da Claudinha: “O vegetarianismo sempre foi uma visão de vida, mais do que uma dieta. Uma visão de saúde física, mental, espiritual, que levaria o ser humano a uma evolução, a uma consciência mais elevada”. E continua: “O veganismo vem dessa fonte, mas desvenda e revela a situação em que vivem os animais e levanta a questão – urgente – de que estas criaturas são sensíveis, têm inteligência, vida familiar, interesses e, portanto, são seres com direitos”.

A escolha por esse estilo de vida passa por dilemas morais, auto-conhecimento, descoberta de novos prazeres e disciplina. “Essa decisão não foi fácil. Queijos são deliciosos. Esse rompimento definitivo me trouxe uma profunda sensação de libertação. Um dos meus prazeres é ver os pássaros, as borboletas voando, livres, admiráveis…”, diz.

Uma das dúvidas que as pessoas têm com relação ao veganismo ou vegetarianismo é como fica a nossa saúde sem a ingestão de carne, alimento que consumimos há milhares de anos. Para isso, minha conterrânea, na condição de vegana e nutricionista, afirma que “a saúde de um ser humano que se torna vegano é ótima”. Segundo ela, “todas as doenças (desequilíbrios orgânicos) com as quais a sociedade sofre neste momento da história tem a ver com a alta quantidade de produtos alimentícios provenientes dos corpos dos animais. E também do processamento exagerado pelos quais os alimentos passam, resultando em baixa vitalidade e em muita concentração de toxinas”.

Mesmo se você não concorda, não se importa ou não se sente seguro para mudar para esse estilo de vida, vale a pena tentar seguir alguma dicas de quem estuda, vivencia e conhece bem a alimentação focada no mundo vegetal. “Temos condições de uma vida saudável adotando uma alimentação que tem grãos integrais (cereais e leguminosas), frutas, verduras, ervas medicinais, aromáticas, frutas oleaginosas (sementes, nozes, castanhas), algas, cogumelos, derivados da soja orgânica (missô, tofu, tempeh, shoyu), flores etc. É uma cozinha rica em cores, sabores, técnicas culinárias e que se vale de criatividade e informações da cultura alimentar do mundo inteiro”.

Não deveria ser tão difícil assim colocar esses alimentos na lista dos produtos mais consumidos em nossas casas, mas a realidade para a maioria dos brasileiros é outra. Li outro dia que dados do IBGE mostram queda no consumo de arroz e feijão e aumento no de refrigerante, bolachas e cerveja, de 2002 para 2009. Constatação preocupante… Mas o que mais me preocupa, ainda, diante de toda a discussão em torno do tema é notar entre muitos gastrônomos, gourmets e até chefs de cozinha o repugnante traço do preconceito. Isso sim não dá pra engolir!


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