“A gente não quer só comida…”

Certa vez uma amiga me mostrou um livro de cozinha muito interessante do artista Rirkrit Tiravanija, que nasceu na Argentina, mas foi criado na Tailândia e no Canadá. A principal característica do seu trabalho é a busca por uma arte interativa, em que o espectador seja menos passivo diante da obra, e por uma desmistificação da obra em si. No livro “Just Smile and Don’t Talk”, além de receitas de pad thai, paella e negroni, há também fotos da exposição com o mesmo nome, que aconteceu no Kunsthalle Bielefeld, na Alemanha. A maioria das instalações faz referência à comida: a mais impressionante (e principal) delas é a que traz sete botijões de gás, 800 tigelas, 800 garfos, sete panelas, cinco bandejas e duas tábuas de cortar.


Untitled 2001 (the magnificent seven, spaghetti western)


Outra obra interessante é a que faz referência à “Fonte”, de Marcel Duchamps. Ele colocou na sala de exposição um dispenser de água, copos descartáveis e banquinhos brancos. Obra de arte ou apenas um local para descansar e tomar água? Na saída da mostra, o visitante era estimulado a se servir de uma das receitas de Tiravanija, feitas em uma pequena cozinha improvisada no saguão do museu.

Os mesmos ingredientes (estranhamento, crítica, humor) também foram utilizados pela artista Alison Knowles na performance “Identical Lunch”, que roda o mundo desde 1968 e que no mês passado passou pela cafeteria do Museu de Arte Moderna de Nova York. Doze pessoas, inclusive ela, sentaram para comer um sanduíche de atum e tomar uma xícara de buttermilk (leitelho – resíduo da produção de manteiga, um leite fraquinho, pobre em gordura). So what?

No final dos anos 1960, Knowle, uma das fundadoras do Fluxus, grupo que pretendia ir contra a arte estabelecida, fazer uma anti-arte e derrubar as separações entre fazer arte e viver a vida, almoçava quase sempre no mesmo lugar e pedia sempre a mesma combinação: sanduíche de atum com alface em um pão de trigo (sem maionese) e um copo de leitelho. Estava criada a performance: ela começou a convidar pessoas a fazer o mesmo e a documentar as diferenças e repetições da experiência. “A ideia era ter uma desculpa para conversar com pessoas, observar tudo o que acontecia, prestar atenção”, disse Knowles, hoje com 77 anos, que no MoMA ainda acrescentou uma nova versão: leitelho e sanduíche batidos no liquidificador e servidos em copinhos de café.

Sinal de que ela continua atenta ao mundo à sua volta, querendo compartilhar mais do que um sanduíche de atum, vendo beleza e entusiasmo em pequenos gestos diários? A resposta poderia vir de Oscar Wilde: “A vida imita a arte muito mais do que a arte imita a vida”.



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