Antropofagia gourmet

Brigadeiro de colher, cupcake, sais gourmet, kobe beef, trufas negras, temaki, iogurte… Nestes últimos anos já vi muitas modas e tendências que se difundiram na cena gastronômicas de várias cidades brasileiras, principalmente no Rio de Janeiro e São Paulo, os dois principais pólos. A maioria dessas “novas” ideias são cópias e adaptações do que está sendo feito no exterior, mas há algumas bem brasileiras, como a popularização do açaí, o uso da ora-pro-nóbis e a valorização da cachaça de qualidade.

Veículos especializados sempre recorrem a especialistas da área para tentar adivinhar quais os pratos, as combinações e os alimentos que farão sucesso em bares e restaurantes na próxima temporada. A Food and Wine não fugiu à regra e publicou as tendências para 2011 (ou aquelas que eles gostariam muito que fossem!). Dá uma olhada aqui.

Lendo a lista mês a mês, encontrei algumas ideias que já estão entre nós (o que não me surpreendeu): em fevereiro, por exemplo, delivery em bicicleta e lista de vinhos no IPad. O primeiro é algo bem comum de ser visto aqui no Brasil (padarias e lanchonetes já utilizam bikes para entregas há muito tempo), mas outro dia me chamou a atenção um entregador do BeFresh: ele usava traje e capacete de ciclista profissional. Olhando o site, vi que eles realmente são atletas. Consciência ambiental para além do discurso. Já no caso do IPad, os sommeliers agora têm mais esse brinquedinho tecnológico para avisar sobre promoções especiais e dar dicas de harmonização. O Bar Brahma é uma das casas que vem utilizando um aplicativo para IPads. Chamado de Pad-Colibri, o sistema permite que o cliente veja as opções do menu e visualize o fechamento da conta.

Colocar a mão na massa (ou na colmeia, no caso) é uma das tendências do mês de maio. O site conta que os hóspedes do Carmel Valley Ranch são incentivados a conhecer e ajudar em todas as etapas da produção de mel, nos apiários do local. Depois, para compensar, eles saboreiam um belo prato de asas de frango com mel. Algo parecido fez o chef Sauro Scarabotta, do Friccó, que organizou pequenos grupos para visitar, por exemplo, produtores de cogumelos shiitake, em Mogi das Cruzes, ou uma criação de javalis, em Araçariguama (interior de São Paulo).

Outra tendência são as participações especiais de chefs em cozinhas de outros profissionais. Segundo o texto, o Animal, de Los Angeles, recebeu recentemente Jeremy Fox, do grupo de restaurantes de Tyler Florence, que passou uma semana servindo pratos como bagna cauda (um molho quente) de feijão verde – opções vegetarianas nem sempre comuns no menu focado em carnes do Animal. Nem preciso dizer que essa é uma das minhas tendências preferidas, né? Na verdade, pra mim ela já não é tendência, é realidade há alguns anos. O Gastro-pop, que ofereço no Studio 768, é justamente isso: intercâmbio de informação entre chefs com o “plus a mais” no final dos chefes servindo a um pequeno grupo de comensais.

Deu pra perceber que, como tem acontecido em outras áreas nos últimos anos, o Brasil assimila rapidamente as tendências mundiais e, mais do que isso, inova e cria suas próprias soluções. Lembrei do Manifesto Antropofágico, do modernista Oswald de Andrade, que dizia lá pelos anos 1920 que não devíamos apenas copiar a cultura estrangeira e sim degluti-la, fazendo uma releitura com base na realidade brasileira. Será que estamos vendo a consolidação da nossa Antropofagia Gourmet?


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