Comida de garagem


É certo que na vida há maneiras de se achar paralelismos em quase tudo. Basta um esforço intelectual e alguma bagagem. Quando me mandaram este texto do site do jornal britânico The Guardian fiquei curiosa, principalmente pelo título: Is food the new indie rock? (A comida é o novo rock independente?). Quando comecei a ler o artigo percebi que há sim um paralelo interessante (e que eu nunca havia parado pra pensar) entre os foodies e os fãs de uma música produzida de forma independente, dissociada das grandes produtoras, a chamada música indie.

Leia-se por foodie aquelas pessoas que vão atrás de todo tipo de informação relacionada à comida, desde técnicas, receitas e restaurantes novos até personalidades do mundo gourmet. Essa categoria de amantes do comer bem tem como particularidade também a preocupação ética com o alimento. Assim como acontece no movimento musical indie, no foodismo, a simplicidade, a autenticidade e a antipatia pelo sintético são bandeiras a serem levantadas.

Wendy Fonarow, autora do texto, que leciona Antropologia em Los Angeles, comenta que podemos ver os valores indies em qualquer rótulo de alimento artesanal: origem local, propriedade independente, quantidades limitadas, métodos tradicionais, ingredientes orgânicos, sem aditivos etc. Quanto mais raro e original, melhor para o foodie (e para o fã do rock independente). “A sensação de descobrir, em um restaurante tailandês underground, um prato específico de uma região montanhosa do país seria tão boa como a de comprar uma edição limitada de um EP de vinil?”, se pergunta Fonarow.

Mas se o restaurante ou o empório da esquina se tornam populares, aí é problema. O discurso do foodie pode mudar para “antigamente é que era bom”. Estou generalizando, claro, mas existe sim essa aura de “só eu e meus amigos frequentamos e isso é que é legal” quando falamos de novos bares e restaurantes. U2 e Nirvana, em épocas diferentes, começaram adorados por poucos pelo tempo em que permaneceram independentes e amados por muitos mais depois que entraram para a cena mais “comercial”. O curioso é que muitos dos mesmos que as idolatravam quando eram só bandas de garagem passaram a torcer o nariz, não por alguma mudança na música em si, mas só pelo fato de que já não dava pra olhar pra eles como se fossem da família. Mas o que importa afinal das contas?


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