Pelotas – do sal ao açúcar


Comi tanta pessegada,
Fios de ovos e bem-casados,
E pastéis de Santa Clara,
Que fiquei cristalizado.

Lembrei desse trecho da música Pelotas, de Kleiton e Kledir, quando estava escrevendo sobre a cidade para uma revista. São tantas as iguarias típicas que hoje Pelotas é a “capital do doce”, sediando a grande feira Fenadoce, que acontece em junho e julho. Estive lá recentemente. Aliás, tenho ido com frequência ao Rio Grande do Sul nos últimos tempos. Apesar de andar mais pra “cidadã do mundo” do que pra gaúcha hoje em dia, é impossível negar que o coração balança um pouco mais quando desembarco no aeroporto Salgado Filho.

Mas desta vez, nada sobre Porto Alegre. Vamos direto a Pelotas, a 270 quilômetros da capital. Pegue a cuia, o mate e… pé na estrada. Assim fui, bela e fagueira, na direção da terceira cidade mais populosa do sul do estado, a pouco mais de 100 quilômetros da fronteira uruguaia. Quer coisa mais gaúcha?

A história da fundação da capital do doce, porém, nada teve a ver com açúcar. E sim com o sal. Em 1780, o charqueador português José Pinto Martins se instalou na região. O sucesso de seu estabelecimento acabou atraindo outras charqueadas para o local: os desbravadores vinham produzir o charque bovino que, curtido em sal e sol, poderia ser conservado por meses.

Os charqueados ocuparam fazendas com escravos, feitores e gado. Na sequência, os açorianos trouxeram tradições lusitanas. A riqueza de Pelotas, emancipada em 1835, brilhava. Filhos de ricos comerciantes locais estudavam na Europa. Isso quando Porto Alegre, a 270 km, mal despontara nos mapas.

O mix cultural da formação pelotense se reflete em sua culinária, de traços pomeranos, poloneses, açorianos, libaneses, judeus e angolanos. O acervo arquitetônico mantém vivendas e estâncias espanholadas, sobrados de influência francesa, chafarizes forjados na Europa, ao lado de jardins e avenidas.

Um exemplo dessa arquitetura é a Charqueada Santa Rita, construída em 1826, em estilo colonial. O hotel recebe em seus 13 hectares personalidades políticas e artistas de todo o país. E não é por acaso: quando fiquei hospedada lá me senti totalmente em casa e ligada à história do local. Super recomendo a estadia e a visita guiada que eles oferecem, em que é possível conhecer peças da lida charqueadora, azulejos e pedras de cantaria portuguesas, entre outras reminiscências da época. O passeio termina no completíssimo Museu do Charque.

Mas, se o charqueado faz parte do passado, hoje as esquinas de Pelotas guardam outras delícias. Quindins, compotas, sanduíches, mil-folhas, tortas, frios, rocamboles. Muitas receitas herdadas de conventos de freiras, casas grandes e saraus.

É muito difícil resistir a panelinhas de coco, fatias de Braga, trouxinhas de nozes e bolinhos de bacalhau do Delícias Portuguesas. E a salada de agriões, mexilhões e sementes de romã da cozinha artesanal do Amor Amora? E o Pão de Leite com Ovo do Café Aquários, o mais tradicional de Pelotas? O que dizer das tortas, doces e rocamboles da Salinas Confeitaria? Só mesmo suspirando de prazer. E, na volta, algum “contrabando calórico” na bolsa, claro. Enquanto não vai a Pelotas, sinta um pouco de seu sabor em casa, com as duas receitinhas abaixo. Uma do sal, outra do açúcar…

Veja endereços preferidos em Pelotas:

Amor Amora
Rua Dom Pedro II, 458
Tel. (53) 9123-4575

Delícias Portuguesas
Rua General Osório, 759-A.
Tel. (53) 3222-3947

Café Aquários
Esquina das ruas Sete de Setembro e XV de Novembro.
Abre todos os dias, das 7h às 23h.

Confeitaria Salinas
Rua Gonçalves Chaves, 202
Tel : (53) 3227-4186



Arroz de Carreteiro

Ingredientes

  • 2 xícaras de arroz
  • 4 xícaras de charque picadinho (ponha de molho por 1 dia)
  • 2 colheres, das de sopa, de azeite
  • 1 cebola média
  • 2 dentes de alho
  • 1 folha de louro
  • Sal

Preparo
Frite o charque na gordura até dourar e vá pingando água em quantidade necessária para cozinhar. Quando a carne estiver cozida e só na gordura (o molho deve ser absorvido), junte o louro, o arroz, o alho socado e a cebola batidinha. Frite tudo muito bem, cubra com água, tempere com sal, se necessário, e deixe cozinhar normalmente. Sirva em seguida.


Panelinha de coco

Ingredientes – Massa

  • 200g de farinha de trigo
  • 100g de açúcar
  • 100g de manteiga (temperatura ambiente)
  • 1 ovo

Ingredientes – Recheio

  • 200g de açúcar
  • 150g de coco
  • 1/2 copo de água
  • 6 gemas

Preparo – Massa
Misture todos os ingredientes com as mãos. Unte forminhas com manteiga e forre com a massa. Fure o fundo e asse em forno pré-aquecido a 140º C por cerca de 5 minutos, ou até ficar levemente dourado. Reserve.

Preparo – Recheio
Ferva a água com o açúcar até obter uma calda grossa. Junte o coco e mexa até aparecer o fundo da panela. Retire do fogo e acrescente as gemas, mexendo sempre. Leve novamente ao fogo, mexendo sempre. Retire e coloque nas forminhas já forradas com a massa. Leve ao forno pré-aquecido a 130º C por cerca de 5 minutos, até dourar a massa e o doce de coco.


Posts Relacionados

  • Sobrevivendo no SulSobrevivendo no Sul Pra quem está acostumado a frequentar os melhores restaurantes italianos aqui em São Paulo, onde é possível conhecer um pouco da […]
  • Dos doces pelotensesDos doces pelotenses O jeito mais legal de conhecer a História, com H maiúsculo, é vê-la refletida em pequenas histórias e situações que acontecem no nosso […]