Pamonha fresquinha, pamonha de Patos de Minas


Pra quem não leu minha coluna da Folha Comida algumas semanas atrás, replico aqui a versão na íntegra deste, digamos, pequeno manifesto em defesa da pamonha. Aí vai…

Quem nunca ouviu a chamada “Pamonhas, pamonhas, pamonhas. Pamonhas, pamonhas fresquinhas, pamonhas de Piracicaba…”? A gente tenta fugir de alguns “mantras”, mas eles sempre reaparecem quando a gente menos espera.

E esse clássico da venda porta a porta apareceu de novo na minha cabeça (e não está querendo sair) há umas semanas, quando fui parar em Patos de Minas, cidade a 400 e poucos quilômetros de Belo Horizonte. Foi nessa viagem que redescobri um dos tesouros da culinária brasileira: ela mesma, a pamonha.

Aparentemente simplória, ela detém recortes antropológicos: é um elo ancestral com as culturas indígenas, raízes do nosso Brasil. Não surgiu das cumbucas portuguesas nem dos botequins. Ela vem das tabas, ocas e malocas. Pamonha significa ‘pegajoso’ em tupi (talvez agora você finalmente descobriu porque aquele tio chato é chamado assim). A única modernidade em seu design é o acréscimo do elástico que mantém as palhas dobradas, o que não é motivo de orgulho, já que as cozinheiras antigas usavam fios da palha do milho.

Mas pra mim tudo parece meio que misterioso na feitura da pamonha. Como a massa não vaza no cozimento? Podemos usar folha de bananeira, como no abará baiano? Sim. Quem inventou aquele design tão compacto? Na internet, existem dezenas de sites e vídeos que ensinam a preparar a pamonha. Os cozinheiros pouco experientes jamais acertariam o ponto e a amarração das palhas. Vamos combinar: melhor comprar a pamonha pronta.

Alguns mercados vendem, algumas tiazinhas fazem por encomenda. E que tal incentivar a venda da pamonha? Tem uma jovem chefe que declara na internet: “Pamonha é chique”. Certíssima.

E lá em Patos de Minas existe a pamonharia mais bem-sucedida que já vi. Fica no km 9,5 da BR-354. Seu dono, o pamonheiro Agnaldo Alves Ribeiro, também vende curaus, canjicas, bolachas e doces feitos com milho. Lugar feito pra louvar o milho. Fiquei sabendo que dá pra rechear pamonha com linguiça, guariroba e até com jiló (chamada de pamonha goiana).

Depois ainda vi na Wikipedia um texto em inglês que explica tudo, traduzindo até a gravação original que saía dos autofalantes dos carros que distribuíam a famosa “pamonha de Piracicaba”. Afinal, pamonha é cultura, e é uma delícia. É o puro creme do milho verde!


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