O estômago do ditador


Há poucos dias, o mundo ficou sabendo da morte de Kim Jong-il, ditador que governava a Coreia do Norte. Desde então, uma série de matérias vêm sendo veiculadas em torno personalidade desse líder, um dos mais enigmáticos da história.

Por ser um dos regimes mais fechados da história (jornalistas são proibidos de entrar no país), pouco se sabe sobre o dia-a-dia dos norte-coreanos e do próprio Kim Jong-il. Havia mais de 15 anos que ele não aparecia em público. O que se via, na maioria das vezes, eram apenas as imagens divulgadas pela agência oficial de notícias.

Mas por que, afinal, eu estou aqui escrevendo sobre esse tirano? Porque, curiosamente, as poucas pistas que se têm sobre o “querido líder”, como Kim é chamado por seu povo, referem-se à sua dieta alimentar.  Uma matéria publicada no The Daily Beast resume bem em seu título: “O melhor caminho para se conhecer Kim Jong-il é pelo estômago”.

Isso porque alguns livros publicados sobre o presidente foram escritos como memórias, por pessoas que conviveram por décadas ou apenas alguns dias com ele. E, coincidentemente, todas essas pessoas estavam ligadas a um aspecto da vida de Kim Jong-il: a comida.

Usando o pseudônimo de Kenji  Fujimoto, o chef japonês especializado em sushi foi cozinheiro e companheiro de Kim por décadas e, em uma série de livros, descreveu os exageros e farras gastronômicas do líder, que além de comer bem e exigir em sua mesa os melhores ingredientes e especiarias do mundo – um de seus pratos preferidos era a sopa de barbatanas de tubarão, uma iguaria –  era também um conhecedor da gastronomia e suas técnicas.

Segundo o chef japonês, ele conseguia, na primeira mordida, reconhecer um pequeno erro na quantidade de açúcar no arroz do sushi.

Fujimoto descreve também a perfeição exigida pelo ditador na forma de cozinhar e nos ingredientes utilizados. O sashimi era feito de peixes ainda vivos e cada grão de arroz devia ser inspecionado pela equipe de cozinha, para que nenhuma unidade fora do padrão chegasse até sua mesa.

O chef japonês era enviado a viagens pelo mundo para buscar os melhores ingredientes. Ele foi pessoalmente, e várias vezes, ao Uzbequistão em busca do caviar, à Dinamarca atrás da carne de porco e à Tailândia para trazer mangas e papaias, por exemplo.

Outras estripulias alimentares foram reveladas pelo chef italiano Ermanno Furlanis em seu livro “Eu fiz pizza para Kim Jong-il”. Furlanis trabalhou por alguns meses junto à comitiva de cozinha do ditador. Ele afirma que, por inúmeras vezes, observou a chegada de mensageiros do mundo inteiro com produtos impensáveis. Ele conta que já viu serem descarregadas caixas e caixas dos queijos mais caros da França, assim como vinhos carérrimos. Como bom italiano, Furlanis contestou a presença dos vinhos franceses e, três dias depois, um carregamento de Barolo chegou à adega do ditador. 

O livro “Expresso Oriente”, escrito pelo oficial russo Konstantin Pulikovisky, é também uma boa fonte para se conhecer melhor o estilo de vida de Kim Jong-il.  Trata-se das memórias da viagem que Pulikovisky fez com o norte-coreanos pela Rússia.  O autor revela ter se impressionado com o conhecimento gastronômico do presidente, que constantemente recebia remessas de lagostas vivas e vinhos durante sua temporada na Rússia – ele queria apenas provar. A cada jantar, degustava entre 15 e 20 pratos.

Tudo isso, que já pode ser um exagero aos olhos da maioria, torna-se inaceitável se pensarmos na situação daquele país. Um país em que livros e internet são proibidos para a maioria de seus habitantes e onde questionar o governo significa passar anos da sua vida em campos de concentração. Um país que na década de 90 teve 10% de sua população morta de fome e outra grande parte sofre de desnutrição. Diante de tudo isso, o governo usa seus recursos para pesquisas para o desenvolvimento da bomba atômica e para manter o luxo na casa e na cozinha do ditador. Um país comunista em que, ironicamente, seus governantes são tratados como deuses.

Tudo isso é uma dolorosa contradição. Eu, tão apaixonada pela cozinha e pela gastronomia, que valorizo os ingredientes, técnicas e diferentes experimentações pelo mundo, me espanto com o exagero insano desse ditador que se foi. Sobretudo sabendo que, sob seu comando, estava uma população inteira passando fome e vivendo à base de cotas de ração.

Sabemos que não é apenas na Coreia do Norte que desigualdades como essas são vistas. Não acho que devemos deixar de vivenciar a gastronomia em sua plenitude, de parar de consumir ingredientes raros, caros ou exóticos que nos dão prazer, ou de promover festas e jantares – essa não é a solução. O que proponho é uma reflexão sobre a maneira que esse consumo deve ser realizado.  Temos que fazer a nossa parte – com nosso voto, nosso trabalho, com nossas preocupações e esforços por um mundo melhor – para que cada norte-coreano, brasileiro,  africano,  árabe, indiano e todo e qualquer ser humano possa comer e viver com dignidade.

Acho bonita a frase de Vinícius de Moraes que diz: “Pra que somar se a gente pode dividir.”

PS. Uma dica de leitura: “O país mais fechado (e estranho) do mundo”


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