Ano de Portugal no Brasil: nós queremos suas receitas!

Dado Motta
No dia 7 de setembro de 2012 – não por coincidência, dia da Independência do país – começa o ano de Portugal no Brasil, e vice-versa. Como tem acontecido há um tempo, o Brasil vem estreitando relações com alguns países por meio dessa espécie de acordo, que prevê trocas culturais e de caráter econômico e social. Uma ideia incrível que, durante um ano, aproxima a duas populações inteiras por meio de uma programação variada.

E claro, que entre essas atividades, a gastronomia não fica de fora – afinal sabe-se muito de um povo ou de um país por seus hábitos alimentares. Ainda mais sobre Portugal, que tem um pouco de historia praticamente escrita em torno de suas comidas… ou será o contrário?

Por trás da deliciosa alheira, por exemplo, conta-se uma história triste. O prato nasceu com os cristãos novos, judeus que, ao migrarem para Portugal durante a perseguição, foram obrigados a se converter ao catolicismo. Porém, como secretamente mantinham alguns costumes, tinham que descobrir maneiras de disfarçar seus hábitos e tradições. Já que não comiam carne de porco, por exemplo, substituíam as linguiças – itens tradicionais nas paredes das cozinhas portuguesas – pelas tripas de boi recheadas com diversos tipos de outras carnes, misturadas a temperos e pão.  A invenção despistava os perseguidores, convencendo-os de que se tratava de uma típica família católica.

Aliás, a religião também tem forte influência na cozinha de Portugal, principalmente, ao que se refere à doçaria portuguesa. Já ouviu falar em barriga de freira, papo de anjo ou toucinho do céu? Esses doces fazem parte de uma tradição gastronômica do país conhecida como doçaria conventual, conhecida mundialmente pelos seus principais ingredientes, em quantidades nada moderadas: açúcar e ovos.

Ganharam esse nome já que as receitas foram disseminadas nos conventos portugueses após o cultivo do açúcar e a popularização desse item na cozinha, apesar de restrito a uma camada social mais elevada, o que incluía o clero português. Na época, também era muito comum os conventos receberem filhas da nobreza e de famílias ricas que, entre outras aptidões, levavam as receitas sofisticadas de suas residências às cozinhas de sua morada religiosa, onde eram aperfeiçoadas… Dizem que a composição destes doces tornou-se um segredo guardado a sete chaves. Claro que ao decorrer dos anos e após algumas pesquisas nos arquivos dos conventos portugueses, essas receitas foram reveladas! Ainda bem!

É o caso também dos pastéis de Belém. Reza a lenda que nasceram com monges do Mosteiro de Jerônimos, que buscando manter a existência da ordem, puseram-se a vender pasteizinhos folhados recheados com um delicioso creme à base de ovos, leite e açúcar, servidos quentinhos (hummm, é assim até hoje, o que me dá água na boca só de lembrar). Os turistas que visitavam a famosa cidade bíblica marcada pela Torre de Belém e pelo imponente mosteiro, logo se acostumaram com aquela preciosidade, indo e voltando atrás dos tais pastéis.

A receita é um dos segredos portugueses mais bem guardados até hoje. Diz que o pasteleiro oficial do mosteiro vendeu o segredo a uma família portuguesa, que vem passando de geração a geração aos seus descendentes e, mesmo assim, nunca foi revelado por inteiro. Atualmente, os únicos doces que carregam o nome “Pastel de Belém” são esses, vendidos na antiga Confeitaria de Belém. Em outras regiões de Portugal você encontra o doce pela denominação de Pastel de Nata, mas, cá pra nós, ora pois, realmente não é a mesma coisa.

Bom, por aqui, a gente defende esse acordo e quer ver muita troca entre os dois países, principalmente no que se refere ao escambo de receitas secretas… será que a gente consegue arrancar esses segredinho deles neste ano?


Posts Relacionados

  • Comida não é pastoComida não é pasto Um projeto de autoria do deputado Antonio Carlos Mendes Thame (PSDB-SP) obriga bares, restaurantes e lanchonetes a incluir no […]
  • O prato do BrasilO prato do Brasil Em minhas andanças pelo mundo, muita gente curiosa pelo nosso país me pergunta qual é o prato típico brasileiro. Sempre acabo fazendo […]