Não se fazem mais obesos como antigamente


Às vezes nos deparamos com um artigo em que diversas ideias ou argumentos em torno de um tema polêmico parecem se encaixar perfeitamente, como num cubo-mágico. Tive essa sensação ao ler esse texto do jornal inglês The Guardian. O assunto em questão é a doença da obesidade e a acusação é a de que a raiz do problema não está no fato de estarmos mais gulosos ou menos ativos fisicamente, e sim no que a indústria de alimentos vem colocando nas prateleiras dos supermercados desde a década de 70.

O artigo é ambicioso e, pelo número de shares, comentários etc. acumulados apenas 1 dia após sua publicação, dá pinta de provocar uma onda viral – do bem, diga-se.

Seu autor, Jacques Peretti, faz uma reportagem extensa para entender por que, em média, a população britânica está 19 kg (isso mesmo) acima do peso que tinha na década de 60. Um fato facilmente verificável por ele, que reuniu, por exemplo, dados sobre o número de obesos que necessita de um transporte especial (ambulâncias barométricas) para irem até o hospital ou a explosão de gastos do sistema nacional de saúde com as doenças em torno da obesidade. Ele nota também o que chama de “ever-expanding sense of normality”, ou seja, aquele movimento que faz com que as roupas antes classificadas como tamanho G passaram a ser M, ou que os bancos de automóveis têm ficado cada vez mais largos ao longo das últimas décadas, e ninguém parece se dar conta disso.

O texto não é uma longa dissertação inconclusiva (o que aumenta nosso desconforto ao lê-lo): Peretti chega a um culpado original, que atende pelo nome de Earl Butz. Em suma, esse acadêmico da indústria agrícola foi recrutado pelo presidente americano Nixon, em 1971, para encontrar uma solução para algo que afetava sua popularidade: o aumento incessante dos gastos com alimentação. A saída encontrada por Butz, e que transformaria pra sempre a indústria de alimentos do mundo todo, foi incentivar em larga escala a produção de milho, mais barato e mais calórico que os cereais usados à época. E como se não bastasse o tsunami do milho em toda a cadeia produtiva (de pãezinhos e biscoitos até a carne – o gado passou a ser engordado com milho também), Butz foi além, até o Japão precisamente, e buscou um substituto para o açúcar que derivasse do milho. E encontrou o HFCS (High Fructose Corn Syrup), que havia sido descoberto nos anos 50, mas que só nos 70 ganhou condições de ser aplicado em larga escala. O HFCS era produzido com o resíduo não aproveitado do milho, ao custo de dois terços do preço do açúcar. Além disso, com poder adoçante muito maior e outros atributos interessantes como dar aqueles aspecto de “acabou de sair do forno” a pãezinhos que, sabemos, foram feitos em imensas plantas automatizadas dias atrás. Daí para a epidemia da obesidade, a indústria alimentícia, deslumbrada com a engorda instantânea de suas margens com o uso do HFCS, deu conta do resto.

O artigo do Guardian vai além e fala dos efeitos dessa nova alimentação em nossos cérebros e intestinos e de como estamos, agora, presos no meio de uma luta de interesses gigante, que só encontra um paralelo no colapso (mais de imagem do que comercial) da indústria tabagista. Sugiro que todos durmamos com essa e, quem sabe, acordemos com outra postura quando tivermos pilotando nossos carrinhos de supermercado.


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