Durazno Sangrando


Nos anos 70, minha família veraneava em Punta del Este (no Uruguai) e lá, além de meus irmão, primos e alguns amigos de veraneio – brasileiros, convivia com muitos argentinos e uruguaios.  Meu pai alugava umas casas bem legais e dessa forma passávamos férias muito confortáveis a agradáveis. Um ponto alto (pra mim) eram “las milanesas y la torta de duraznos del Restorán Doña Flor”. O restaurante era perto da casa e pertencia a uma senhora chamada Ana – relativamente jovem – que tinha três filhas e com as meninas tocava o negócio. As vezes íamos comer lá, mas na maior parte das vezes encomendávamos … chegavam numa cestinha, trazidas de bicicleta pela filha do meio – Dominique. Sempre uma festa, pois tanto os bifes à milaneza, como a torta de pessegos eram sublimes.

Em 1975, o roqueiro argentino Luis Alberto Spinetta lançou um “vinil” que se chamava “Durazno Sangrando”. Como eu gostava de Mutantes, Raul Seixas (e outros psicodélicos da época) não tive dificuldade de gostar de Spinetta e, de mais a mais, o nome “Durazno Sangrando”, me remetia sempre a torta de pessegos de Dona Ana.

“Los Duraznos” .. os pessegos são (pelo que se sabe) originários da China, tanto que não é incomum ver quadros chineses com flores de pessegueiro. Pelas rotas comerciais da Constantinopla, chegaram na Europa e se deram muito bem. Para o Brasil, vieram da Ilha da Madeira nas primeiras expedições portuguesas, porém, só assume o “status” de produto comercial, na metade da década de 40. O cultivo comercial do pessego se restringe ao sul e sudeste brasileiros, pois para se desenvolver necessita de baixas temperaturas.

A expansão comercial da cultura no Brasil se deu devido aos programas de Melhoramento Genético de Fruteiras de Clima Temperado desenvolvido, em São Paulo e no Rio Grande do Sul, durante a década de 50. Até então, somente 20% do pêssego consumido no Brasil era proveniente da produção nacional, enquanto o restante era importado fresco ou industrializado.

Outro dia, numa de minhas regulares e constantes visitas a Porto Alegre (tenho minha família – pai, mãe, irmãos e sobrinhos – lá), passeando pela Zona Sul (uma das minhas regiões preferidas) me deparei com um velho caminhão, estacionado à margem da estrada vendendo os primeiros pessegos da safra da Vila Nova.

A Vila Nova é um bairro de Porto Alegre que fica num vale e tem astral de cidade de interior. Tem muitos sítios e é responsável pela maior parte da produção de pessegos que abastece a região. Oferece duas ou três variedades de pessegos, dois de mesa e um para doces (este último mais amarelo, firme e levemente ácido).

Gosto de todos, mas meu preferido é um de carne branca, doce e muito macia. Comprei uma caixinha de cada. Fomos para casa, comemos alguns dos de mesa e a receita da torta de pessegos de meus veraneios no Uruguai, transbordou da minha memória.

Não deu outra .. pé na cozinha, fé na cumbuca e mão na massa.

Ingredientes para “torta de duraznos”

• 1 kg de farinha de trigo
• 400 g de manteiga sem sal dura para a massa
• 100 g de manteiga sem sal para cozinhar junto com as maçãs
• 2 colheres (sopa) de açúcar para a calda
• 150 g de açúcar para a massa
• 100 g de açúcar para o recheio
• 1 kg de pessegos/duraznos firmes
• 1 pitada de sal
• 300 ml de leite temperatura ambiente
• Água

Prepare assim:

• Peneire a farinha com o sal e o açúcar e acrescente 400g de manteiga fria, em pedacinhos;
• Com a ponta dos dedos, incorpore a manteiga à farinha;
• Acrescente o leite aos poucos até formar a massa e deixe descansar por – no mínimo – 2 horas;
• Parta as maçãs ao meio, retire as sementes e corte cada metade em 5 fatias;
• Em uma frigideira grande, que possa ser levada ao forno, acrescente o açúcar para fazer a calda;
• Coloque os pessegos e deixe que cozinhem um pouco, mexendo sempre;
• Acrescente a manteiga e cozinhe mais um pouco;
• Abra a massa em um tamanho um pouco maior que o da frigideira usada;
• Coloque a massa por cima dos pessegos e leve ao forno, pré-aquecido na temperatura de 250º, por aproximadamente 45 minutos;
• Para desenformar, vire a frigideira sobre um prato grande ou tábua de madeira.


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