E se o bom e saudável leite me faz mal?

Nos anos 60 ouvi falar pela primeira vez em culinária macrobiótica (do mestre japonês George Ohsawa). Tinha lógica e em seguida cativou um grande número de seguidores. Se estruturava basicamente na distinção da alimentação Yang e Yin e um consequente equilíbrio necessário. Esse equilíbrio, variava no inverno e no verão, exigindo percentuais diferentes de grão, legumes e raízes . Era tudo muito cozido com o intuito de “yanguizar”.

Não existiam – necessariamente – restrições, porém alguns alimentos eram tratados como “remédios emergênciais” (como a proteína animal) utilizados e situações muito especiais.

Visitei alguns restaurantes macrobióticos na época, mas confesso que (mesmo tendo usufruído com certa frequência – pois a comida era saborosa e parecia muito nutritiva), nunca me aprofundei a ponto ter conhecimento suficiente para escrever sobre isso.

Nesse mesma época (período do movimento hippie) houve uma grande abertura para culturas (ditas) alternativas. Além do “bum” artístico e musical, acessamos outras medicinas, novas formas de alimentação, a energia dos ambientes que – entre muitas outras – conduziam para um relacionamento mais saudável com a natureza e – consequentemente – à censura ao industrialismo indiscriminado, monoculturas e outras tantas massificações.

Eu ouvia nos restaurantes naturistas (e macrobióticos), que o consumo de leite era exclusivo do filhote mamífero. Ou seja o leite que se toma é apenas o da mãe no período da lactância – o que nos seres humanos varia em torno dos seis meses.

O leite da vaca é do bezerro, o leite da cabra é do cabritinho e assim por diante … essa era a doutrina … e fazia sentido.

Estavam certos. A medicina identificou – ao logo dos anos – algumas intolerâncias que ganharam “status” de patologia. A hipolactasia (incapacidade de digerir a lactose) e a doença celíaca (intolerância ao glúten), são hoje alvo de cuidados especiais e – graças a isso – a qualidade de vida (se não a própria sobrevivência) passou a ter outro significado.

O que se sabe é que, a maioria dos mamíferos se torna intolerante a lactose após o desmame, porem alguns grupos humanos desenvolveram “Lactase Persistência”  (produção de lactase – enzima que facilita a digestão do leite – na idade adulta). Estima-se que 75% dos seres humanos apresentam uma regular diminuição dos níveis de Lactase após os desmame.

Conversando com minha amiga Lenice Zarth Carvalho – nutricionista (http://wp.clicrbs.com.br/nutrir/) – soube que existem três níveis dessa patologia.

A deficiência Primária, que é genética, afeta apenas adultos e é causada pela ausência da “persistência da lactase”. Caracteriza a causa mais comum.

A Secundária (adquirida ou deficiência transitória), causada por lesão no intestino delgado (normalmente na infância).

E a Congênita que – embora muito rara – é a que aparece ao nascer (são as crianças com incapacidade de digestão da lactose).

É importante sabermos que problemas digestivos – regulares – relativos ao consumo de leite e derivados, não são – necessariamente – consequência de uma alergia ou resposta imunológica de outra ordem.

O leite sempre foi uma solução fácil e acessível para estarmos abastecidos de cálcio, sais minerais e outras vitaminas contidas no leite, mas não podemos esquecer que esses elementos – indispensáveis para nossa saúde – podem ser encontrados na natureza em forma de legumes, frutas, raízes, cereais, etc, etc, etc.

Segundo Lenice, não deveríamos necessitar do leite de outra espécie para suprir nossas necessidades nutricionais, já que existem outras fontes. O erro está em pensar que os ossos necessitam apenas de cálcio. Dai deriva a preocupação em oferecer muito cálcio e – consequentemente – a recomendação do leite de vaca. O cálcio vegetal é bem absorvido e é encontrado em grãos, vegetais verde-escuros, sardinhas, gergelim, entre outros. Necessitamos também de magnésio, vit D, zinco, silício entre outros nutrientes indispensáveis.

– Normalmente no meu consultório (comenta Lenice), encontro mais deficiência de magnésio e de vitamina D do que de cálcio, mesmo em pacientes que não tomam leite.

Comentei que nas prateleiras das casas especializadas em nutrição e até nos supermercados – cada dia mais – são oferecidos produtos sem lactose, sem gordura, sem açúcar, sem isso e sem aquilo e todos declaram uma carga vitamínica, mineral e energética invejável… perguntei… isso vale?

Lenice: – Muitas vezes vale sim – se o produto é de qualidade. Como as deficiências nutricionais são cada vez mais frequentes, o mercado aproveita para lançar produtos que tentam compensar esses nutrientes. Difícil é saber se a qualidades dos nutrientes adicionados é – realmente – boa. Portanto… cautela.

Mesmo necessitando cautela na busca de soluções, podemos afirmar que as pessoas com intolerância a lactose contam – hoje em dia – com uma grande quantidade de opções saudáveis e saborosas para se alimentarem. E necessitam – cada vez menos de complementos minerais e vitamínicos de laboratório e cada vez mais de uma alimentação inteligente e equilibrada.

Informação não falta… e se o sintoma persistir, procure o médico…


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