Copa & Cozinha: Acarajé

Por que a FIFA vetou o acarajé?

Absurdo total a FIFA ter proibido que baianas de acarajé vendessem seus quitutes nas áreas próximas ao estádio da Fonte Nova, em Salvador. Assim como é absurdo os governantes baianos se submeterem a um arbitrariedade cultural tão grande.

Sim, o acarajé é um tesouro cultural da Bahia. Poderia ser tombado pela UNESCO como um bem da humanidade. Afinal, alguns alimentos são tão representativos de determinadas culturas que adquirem status de simbologia cultural permanente.

O historiador Manuel Querino, em seu livro “A arte culinária na Bahia”, de 1916 revela como preparava-se o acarajé naquela época: ” o feijão-fradinho era ralado em uma pedra, de 50 centímetros de comprimento por 23 de largura, tendo cerca de 10 centímetros de altura. Um rolo cilíndrico sobre a pedra, moía e triturava o feijão”.

O acarajé baiano vem das etnias Iorubás da África Ocidental (Benin, Togo, Nigéria, Camarões) e teria sido inspirado no faláfel árabe, trazido aos africanos pelas caravanas que partiam do Oriente Médio. Os africanos então substituíram o grão de bico da massa do falafel pelo feijão-fradinho, base do acarajé.

Comida ritual da orixá Iansã, na língua iorubá é chamado de àkàrà (“bola de fogo”; jé significa “comer”). Sua origem é explicada pela relação de Xangô com Oxum e Iansã –que se tornou oferenda a esses orixás. O acarajé ainda é considerado pelas baianas tradicionais como algo sagrado: sua receita não pode ser modificada e deve ser preparada pelos filhos de santo. Trata-se, portanto, de uma maravilhosa iguaria ritualística que se tornou popular e, portanto, um bem cultural brasileiro. Comida também é cultura, repito.

A massa do acarajé leva feijão-fradinho cozido e moído duas vezes sem a casca; depois acrescenta-se cebola ralada e sal. A famosa baiana Dinha me contava que o segredo do acarajé macio estaria na “bateção da massa, minha filha”. Depois, a obra-prima é levada a uma panela funda com litros de azeite de dendê bem quentes, para fritar até que adquira seu tom dourado e crocante.

Depois, vem a melhor parte: saborear o acarajé, que deverá ser cortado ao meio e recheado com vatapá, caruru, camarão refogado e pimenta. Prefiro apenas com pimenta, muita pimenta. E uma cerveja gelada. Tem coisa melhor?

Por isso, dona FIFA, mereceríamos um pedido oficial de desculpas. Acho um erro tão grave quanto alguém chegar na sede da entidade em Zurich e proibir o queijo suíço de ser vendido nas proximidades de um evento.

Todo poder ao nosso acarajé. Esse quitute vale mais do que mil gols do Brasil.


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