Copa & Cozinha: Brasília


Sabores do Brasil Central

Embora tenha 54 anos de fundação, Brasília ainda não tem uma “cara” definida. Mas sabemos que lá existe um tipo de comida que chamam de culinária candanga. Vamos tentar entender que cozinha seria esta?

Bom, a formação do paladar do Planalto Central advém da mistura de brasilidades que moldaram a formação do Distrito Federal, desde que Juscelino Kubitschek decidiu transferir a capital para o cerrado. Culturas distintas se uniram na construção de Brasília, agregando-se aos povos já estabelecidos naquele ponto do país. Por tudo isso, muitos garantem que Brasília ainda não tem uma culinária a ser considerada típica. Não importa. O que se observa, no cotidiano do brasiliense, é um mix total de ingredientes, receitas, sabores, cores, cheiros, aromas.

Do ponto de vista geográfico, Brasília seria um enclave do estado de Goiás, de onde vem suas maiores influências da comida local. Mas o advento de grandes correntes migratórias, principalmente do Nordeste, gerou uma espécie de “pororoca” gastronômica: tem de “um tudo” mesmo, uai.

O prato típico então seria o arroz com pequi, um espinhento fruto do cerrado, de sabor forte, também muito utilizado nas cozinhas goiana e piauiense, e no norte de Minas Gerais? Poderia ser, mas o pequi hoje deixou de ser um prato popular em Brasília. Os tempos mudam, as comidas mudam com os tempos.

A cozinha goiana é de origem indígena, com influência de mineiros e bandeirantes paulistas que andaram pelo Planalto central em busca de ouro, no século 18.  Por isso temos receitas coloniais como arroz de carreteiro (feito com carne-seca e conhecido também como arroz Maria Izabel), feijão tropeiro, peixe na telha, arroz com suã, molho de mamão verde, galinhada, frango ao molho pardo, molho de pequi, mandioca frita, farofa de cambuquira, angu de milho verde e temperos como colorau, pimenta malagueta, açafrão da terra e pimenta-biquinho.
Nada com a leveza dos tempos modernos, porém com sabor das mesas de outrora. Em Brasília temos ainda o tradicional empadão goiano (espécie de torta recheada com diversas carnes, queijo e guariroba (um “palmito” amargo), assado em grandes cumbucas.

No quesito sobremesa, a coisa fica mais heavy e com cara de Iaiá do século 18. Há doces do pau de mamão, cajuzinho do campo, ambrosia, ameixinha de queijo, pamonhas, geléia de mocotó, requeijão caipira, bolo de arroz, pastelinho (torta com doce de leite e uma pitada de canela) e alfenim (doce feito com açúcar, água e limão, com formatos de animais e flores).

Para aliviar essa farra, existem as frutas nativas do cerrado: murici, cajá, mangaba, cagaita, buriti, pequi e o maravilhoso baru (semente altamente protéica e saborosa).

Então podemos concluir: existe comida candanga, sim. Ela representa Brasília? Sim e não. Entretanto, na capital nacional pode-se ter uma aula de história da culinária tradicional do Brasil, com pratos que tendem a desaparecer.


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