Vídeo do Porta dos Fundos

Gastronomia da ostentação?

O recente vídeo “Restaurante Moderno”, do sensacional grupo Porta dos Fundos, precisa ser visto a sério. Ali estão críticas que nós, os chefs profissionais, sempre evitamos ouvir, discutir e levar adiante. São apenas 2’36’’ que valem muito assistir (http://www.youtube.com/watch?v=4mS5jXANB78) e… refletir.

O grupo aponta a quase caricatura que se transformou a chamada “cozinha contemporânea”, ao celebrar os cozinheiros como estrelas de primeira grandeza, como regentes mais importantes do que as suas criações. Criações que muitas vezes atendem a apelos de tendências, modismos e exibicionismos próximos ao esnobe. Denota, ainda, a elevação de determinados restaurantes ao patamar de local “para ver e ser visto”, em uma ciranda social que transcende o real sentido da cozinha: ter prazer pelo paladar por meio da alimentação.

Alguns desses “templos” da gastronomia contemporânea conseguem a proeza de atrair apenas as novas elites urbanas (aquele tipo de gente que adora comprar carro importado e colocar a chapa com o prefixo da marca do veículo). Os hipsters de hoje são filhos dos yuppies dos anos 80. Se aqueles eram meramente consumistas e exibicionistas de grifes, os hipsters vivem em busca da essência de um suposto estilo, de um bom-gosto que sequer sabem definir o que seja e de um modo de vida cyber-vazio. Os hispsters fazem suas refeições tendo ao lado do prato um objeto que consideram como guia espiritual: o celular.

E a cozinha contemporânea caricaturada pelo Porta dos Fundos reflete essa onda de superficialidade gastronômica, de efeitos, de falsas sensações, de citações (em inglês chamam “dropping names”), de referências completamente equivocadas, da ansiedade pelo “chic”, pelo “diferenciado”, pelo “exclusivo”.

Ora, no meio dessa onda em que os restaurantes são quase clubes privês, a comida (muitos até esquecem que restaurantes são locais para se comer bem, para se nutrir com prazer) segue em segundo ou terceiro plano. Sim, porque em determinados locais, a escolha do vinho se sobrepõe à escolha do prato. Muitos pedem primeiro um vinho que, depois de escolhido, terá que ser ‘harmonizado’ com o prato a ser escolhido. Há uns 15 anos atrás, o procedimento era o inverso.

Bom, fora o roteiro bem escrito e as atuações hilariantes do elenco de Porta dos Fundos, o vídeo “Restaurante Moderno” nos traz um sinal de alerta importante. Comida, cadê você? Por essa e por outras mil e uma razões, ainda prefiro meu balaio de sabores, minhas cumbucas atemporais e a descoberta calma de novas formas de preparar uma receita, de compreender um ingrediente, de comer com alegria. A bênção, Dona Benta.


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